Sexta-feira de Quaresma


As sextas-feiras da Quaresma são dias de abstinência. É um dia "sagrado", que nos lembra aquela sexta-feira em que Jesus morreu na Cruz. E que bom seria que fossem também dia de abstinência de más acções, de violências, de mais austeridade e de partilha. Se calhar ainda estamos longe destas abstinências - eu por mim falo - e por isso vamo-nos contentando com o não comer carne, que é mais fácil de cumprir.
Há já alguns anos que nas sextas-feiras da Quaresma, pelas 15 horas, hora em que Jesus morreu, tenho o cuidado de parar, fazer silêncio e de rezar um pouco, normalmente a hora intermédia da Liturgia das Horas. E depois oiço, enquanto estou no quarto, uma Paixão de Cristo. Vou variando entre as três de Bach (Mateus, Marcos e João) e uma de um Dominicano, André Gouzes, de São João. Daqui a pouco vou ouvir a de São João, versão Bach. Que começa logo com uma oração do fiel que se dispõe a meditar os passos da Paixão do Senhor: "Senhor, nosso Rei, cuja glória resplandece em toda a terra! Mostrai-nos, pela Vossa Paixão, que Vós, o verdadeiro Filho de Deus, mesmo passando pelas grandes humilhações, sereis glorificado para sempre". E assim vai cantando o coro, durante nove minutos, repetindo compassadamente a palavra Herr (Senhor), como se fosse um grito, um pedido insistente à não distracção, à presença activa nos caminhos da dor de Cristo, caminhos fecundos, necessários para chegar à Cruz que, para nós, há-de ser sempre sinal de glória.
Este ano as sextas-feiras, para mim têm ainda uma outra ligação com a dor e o sofrimento. É dia de ir ao hospital. E ali estão eles, os Cristos do presente, uns dando sentido ao seu sofrer, outros rejeitando e questionando Deus com a pergunta sem resposta: Porquê?. Mas para mim são o mesmo rosto de um Cristo que sofre, no seu corpo, as dores da doença cruel que os ataca. A partir de hoje, e durante as próximas sextas-feiras vou também atender em confissão as pessoas que me procurarem. Que outra coisa posso eu partilhar com quem me procura senão a misericórdia de Deus? E assim vou vivendo as sextas-feiras da quaresma pedindo a Deus que sejam úteis a mim e quantos comigo hoje se cruzarem.

(esta pintura é do Fra Angelico, Dominicano, que se encontra no Fogg Art Museum, Cambridge)

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