Várias coisas do dia de ontem



Às vezes não é só a vida que é feita de retalhos. Até um dia pode ser como aquelas mantas tão coloridas de retalhos, como as que a minha avó fazia no tear. Não eram quadrados de diferentes tecidos e cores cosidos entre si, mas aquela trama colorida, que ia passando na urdidura, ora nos fios pares ora nos ímpares de onde compassadamente, com paciência e atenção, saía a pesada manta de tear.
Pois assim foi o meu dia de ontem. Vários sítios, algumas pessoas, poucas conversas... que aqui vou tecer.
Foi dia de celebrar missa no Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Arroios. às 8.30h o que supõe sair do convento, o mais tardar, uma hora antes. O metro leva-me quase lá mas o quilómetro que tenho que percorrer confirma os cinco graus que o termómetro tinha indicado. Missa para os alunos do 8º ano. Plena adolescência. Eles e o seu mundo. Nota-se que é uma idade diferente. Há Missa não por ser dia de ir ou por ser Quaresma. Estas Missas que lá vou celebrar são o terminar de uma formação humana e cristã para os sensibilizar para a solidariedade. Na visita que fizeram ao Centro das Galinheiras que desenvolve naquele bairro periférico e pobre da cidade de Lisboa, um trabalho de atenção e dedicação a crianças e idosos. Muito deste trabalho é possível graças às Irmãs que lá vivem e aos voluntários que dedicam algum tempo da sua vida a esta causa.
Missa celebrada há agora tempo para o já habitual café com alguns dos professores. A conversa de ontem foi bastante interessante: a pastoral nos colégios. Aqui teria muito que escrever, não da conversa mas do que vou vendo pelos colégios por onde vou passando.
Mas ainda há muito para andar. Faço a pé um percurso que muito me agrada: da Praça do Chile até à baixa. Não é muito. Avenida larga, com gente muito diferente, lojas de revenda misturadas com bancos e cervejarias, aqui vende-se roupa ali vendem-se tachos e panelas e mais à frente está uma mercearia. É uma rua movimentada, quer de carros quer de pessoas, entro para ver a igreja dos Anjos. Fico admirado com o silêncio e com a talha dourada que cobre toda a igreja. Continuando a descer a rua, rapidamente chego à mouraria. E decido entrar por aquelas ruas empedradas, não niveladas, a tão cantada rua do capelão, rua onde morreu a "fundadora" do fado, Maria Severa Onofriana. Ali morreu, com apenas 26 anos, como indica a placa que, por a rua ser tão estreita, quase não se vê. E aonde vai dar a rua do Capelão? À sua igreja. Igreja do Socorro. Aparentemente fechada. Felizmente há uma pequena porta, a da sacristia, que está aberta. Apresento-me à sacristã e peço-lhe para me mostrar a igreja. Desfaz-se em cortesias, vamos falando da igreja e do povo, e quando lhe pergunto se vai muita gente à Missa diz-me: "Olhe senhor padre, isto já não é como dantes: agora é só castanhos e chineses". Pois é, agora a mouraria já não é aquele bairro castiço das fogueiras de Santo António e do fado à janela. À janela vemos agora as venerandas senhoras, de muita idade que estão à janela para não estar em casa fechadas; assim sempre apanham o ar fresco da manhã. A igreja, vim a saber ao almoço, foi primeiramente um mosteiro de monjas dominicanas - bem me estranhou aquele claustro - depois pertenceu aos Agostinhos - daí a grande devoção ao santo e os azulejos da sacristia - e, finalmente, foi colégio dos jesuítas. Da sua presença pouco resta a não ser a tradição oral: daqui partiu São Francisco Xavier para as missões.
Subo a rua para depois descer umas enormes escadas. Aliás, na mouraria há muitas escadas! Desço as "Escadinhas da Saúde". Não por elas fazerem o milagre de curar mas porque vão desembocar no largo da Capela da Senhora da Saúde. Por falar em saúde, uma paragem na farmácia para a compra dos medicamentos da minha maleita, só ali se vendem!, e continua a pé até aos restauradores onde apanho o metro que me traz a casa.
À tarde continua a tecelagem. Mais calma, sem sair do convento vou decidindo coisas que estavam pendentes ou a arrastar-se no tempo. No final da tarde vem falar comigo um arquitecto amigo para vermos alguns problemas relacionados com a igreja e com o convento. Há ainda tempo para fazer umas traduções - sou péssimo tradutor! -, Missa comunitária (só agora que escrevo é que me lembro que já tinha celebrado Missa de manhã!, vejam o meu estado!) e, depois do jantar, embora sem muita vontade mas para evitar ao máximo a sedentarização, a tradicional caminhada de quase cinco quilómetros pelos arredores do convento. Há ainda tempo para terminar de traduzir uns parágrafos, leituras calmas e orações finais para que "O Senhor omnipotente nos dê uma noite tranquila, e no fim da vida uma santa morte. Ámen".
P.S. (de Post-Scriptum): ontem à noite, durante a minha caminhada deparei-me com um anúncio: "Nascer de novo, porque não?", e pensei: anuncio da Igreja Católica para este tempo da Quaresma! Boa ideia! Mas não... era o anúncio do azeite oliveira da serra!
(Esta fotografia tirei-a da net: é a entrada da rua do capelão)

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