Continuidade

Neste Capítulo Geral uma palavra que aparece muitas vezes é "continuidade". Os Capitulares não pretendem fazer nada de novo, não têm pretensão escrever agora o que nunca se escreveu. Mas, como tem sido repetido, este Capítulo quer continuar o projecto de São Domingos e, também, dar continuidade aos dois últimos Capítulos Gerais (Cracóvia 2004 e Bogotá 2007), sobre o que somos e o que queremos. Para nós, dominicanos, o passado conta para analisar o presente e tomar decisões sobre o futuro.
Este Capítulo Geral tem duas datas-acontecimentos do passado que quer trazer para o presente tendo em vista o futuro. A primeira é que, em 2016 celebraremos o 800º aniversário da fundação (oficialização) da Ordem. Foi no dia 22 e Dezembro de 1216 que o Papa Honório III aprovou o projecto de São Domingos: o nosso estado clerical e a pregação. A segunda data-acontecimento, foi a chegada de uma comunidade de Dominicanos a La Hispaniola (ilha actualmente ocupada pelo Haiti e Republica Dominicana) em 1510 mas, sobretudo, o famoso sermão de fr. António de Montesinos pregado no IV Domingo do Advento de 1511 de que falarei daqui a pouco.
A preocupação do Capítulo é a mesma de São Domingos: a pregação. Mas damo-nos conta que, às vezes, a pregação é feita e vivida à margem da Comunidade (fala-se aqui de individualismo, privatização da Missão...). Ora, a primeira data (1216) quer fazer-nos ver que a pregação dominicana só é autêntica, verdadeira e testemunhal se for vivida em Comunidade e a partir da Comunidade. São Domingos quis que os seus frades vivessem em Comunidade e a partir da Comunidade. Enquanto que se fala, por vezes, de tensão entre vida comum e missão, e isso legitima que um irmã peça tudo à comunidade mas nada dê, aqui fala-se de harmonia necessária entre estas duas dimensões da nossa vida. É certo que se pode pregar sem a comunidade: os padres seculares fazem-no; mas, para os dominicanos, pregação sem comunidade, é falsa pregação. Daí que, uma das intuições mais bonitas da vida de São Domingos tenha sido o de enviar os frades dois a dois, para pregar e fazer comunidade.
O outro acontecimento ilumina este primeiro. No século XVI, encontrado o Novo Mundo, uma comunidade parte, de Salamanca, com destino a La Hispaniola. Uma comunidade que quer viver autenticamente a espiritualidade dominicana: Comunidade, Pobreza, Pregação. É uma comunidade atenta aos problemas do mundo (não esqueçamos o que mais tarde o P. Lacordaire irá dizer sobre os dominicanos: "o verdadeiro dominicano é aquele que prega com a Bíblia numa mão e o jornal na outra") e, naquele ambiente, ao tratamento dos Índios, que não eram considerados seres humanos. E, então, a comunidade de Pedro de Córdoba, considera necessário denunciar esta atitude por parte dos colonizadores. A Comunidade redige o sermão e pede a fr. António de Montesinos que o pregue. No Domingo seguinte, o IV do Advento, fr. António de Montesinos sobe ao púlpito e começam as denúncias: "Por acaso eles (os Índios) não são homens? Não têm alma? Não estais obrigados a amá-los como a vós mesmos?". Horas mais tarde aparecem no convento - na verdade era uma palhota - o Almirante acompanhado dos ilustres da terra, indignados com o sermão de António de Montesinos, pedindo ao Prior do Convento, fr. Pedro de Córdoba, que o pregador se retratasse. fr. Pedro de Córdoba apenas lhe respondeu que não se retrataria porque o sermão não era de António de Montesinos mas sim de toda a Comunidade.
Este segundo acontecimento, como disse, ilumina o sentido da nossa pregação e confirma o que se diz sobre a importância da comunidade. Na verdade, o pregador foi Montesinos mas a pregação foi resultado da oração e da decisão da comunidade.
É esta dimensão comunitária da nossa vida que este Capítulo quer reabilitar. Não quer fazer diferente nem restaurar; simplesmente dar continuidade ao projecto de São Domingos que acreditamos estar válido no século XXI.

(A imagem é a Comunidade de fr. Pedro de Córdoba)

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