O mundo e as suas questões

Fez parte de uma certa espiritualidade - infelizmente para alguns ainda faz - a condenação do mundo. Pensemos nos chamados "inimigos da alma" que a doutrina da Igreja reduziu a três: mundo, carne e demónio (no século XIX havia um refrão que dizia: "ao mundo guerra, a carne ao demónio"). Será que é atitude cristã a condenação do mundo? Certamente que não. Logo no princípio do Evangelho de João se lê que Jesus vem ao mundo porque Deus ama muito o mundo (3, 16). Por isso, o cristão não pode entender o mundo como um perigo, um medo, mas sim como um desafio.
As leituras de hoje revelam, no meu modo de ver, o vazio do mundo, as suas questões, e como nós, cristãos, podemos ajudá-lo no encontro consigo mesmo e com Cristo.
Na primeira leitura, do livro de Cohelet (1, 2-11), vemos um homem desiludido com o mundo. Chamar-lhe-ia neurasténico. A sua desconsolação é a falta de novidade: considera tudo vão, a passagem dos dias como o passar das contas de um rosário, a rotina como uma fatalidade inalterável. Assim corre o mundo. As novidades são as desgraças. Uma atrás da outra procurando a pior. Vemos um mundo sem esperança, ou, se quisermos, a esperança do mundo anda escondida: quem valoriza o trabalho de um voluntário que chega um copo de água à boca de um doente? Quem dá conta da vida de homens e mulheres que vivem no meio da guerra, sofrendo com quem sofre, tentando instaurar a paz? Onde vem a notícia daquela comunidade que todas as noites sai para a rua para dar de comer e atenção a quem é rejeitado pela sociedade? A esperança não desapareceu do mundo. Ela é discreta e, infelizmente abafada. O cristão é esta pessoa que está escondida com a esperança; que se confunde com ela, que aceita o desafio de não deixar morrer o bem no mundo.
No evangelho aparece-nos a questão que Herodes faz sobre Jesus: "Quem é este homem, de quem oiço tais coisas?" (Lucas 9, 9). E termina o relato dizendo que Herodes procurava ver Jesus. Esta é a questão da velha Europa que se manifesta no indiferentismo sobre religião, na ausência de valores humanos e cristãos, num ateísmo terrorista que não aceita o diálogo sobre Deus mas sim a imposição da sua maneira de viver. A Europa está como um campo de cultivo cansado. Não tem forças em si para produzir. No entanto, a esperança nasce do desejo. E nós, cristãos, devemos ter e dar resposta a estas perguntas que inquietam não só quem as faz mas também a nós que as ouvimos. Temos aqui a possibilidade de apresentar novamente Jesus, como se de uma nova evangelização se tratasse. O Concílio Vaticano II dizia que o remédio para o indiferentismo e para o ateísmo está no testemunho duma fé viva e adulta, preparada para analisar lucidamente as dificuldades e superá-las.
Como cristãos não estamos no mundo para o condenar ou fazer-lhe frente. Estamos para dialogar, que é a melhor atitude de tolerância e de respeito e para ser testemunhas de uma verdade escondida: que Deus ama o mundo e ama mesmo aqueles que não se sentem amados ou rejeitam o seu amor.
(fresco de uma domus romana, séc. IV, Igreja dos Doze Apóstolos, Roma)

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