Pare, escute e olhe


Após a eleição do Mestre da Ordem (MO), o Capítulo entrou numa segunda fase que é a da resolução de problemas sejam eles encarados como negativos ou desafios. É um trabalho mais monótono e cansativo. Vamos estar praticamente toda a semana a trabalhar em comissões ou sub-comissões para tratar os temas que nos foram encomendados.
A minha comissão é a da Sequela Christi (seguimento de Cristo), na língua espanhola. Como há algumas situações a tratar, depois de identificar temas e problemas, dividimo-nos em grupos para que o trabalho seja mais eficaz. É neste ponto que estamos.
O fruto do trabalho destas comissões será a edição das Actas do Capítulo. E aqui muda a imagem que temos deste tipo de trabalhos, ás vezes desprezado pelas comunidades. Mas o seu grande valor (independentemente de quem está no Capítulo) é que somos nós que damos as orientações para nós próprios. Decidimos sobre nós, sobre o nosso bem comum; o que é um belo exemplo de democracia, tão elogiada numa Igreja que não é muito democrata e, ao mesmo tempo, tão desvalorizada nas nossas sociedades. Temos uma tal maneira de viver a nossa democracia dominicana que até a Constituição americana se inspirou nas nossas leis e no nosso modelo (eleições, representatividade...). Inclusivamente chegámos aqui a falar num momento de recreio, sobre os benefícios que a Igreja hierárquica teria se adoptasse o nosso modelo. Sei que é um sonho e uma ilusão mas já repararam no que seria os padres (já não digo os baptizados não-ordenados) poderem eleger os seus representantes para a eleição de um bispo e os bispos poderem eleger representantes para a eleição de um papa e o papa ter um mandato de nove anos e, depois, regressar à sua diocese de origem e dar lugar a outro para governar a Igreja? Não quero dizer que o modelo dominicano é o mais eficiente... mas que nos dá liberdade e autoridade dá. Mas este é mais um dos meus devaneios que, felizmente, outros partilham comigo.
Falo agora, brevemente, do título deste post. Pare, escute e olhe. Era o aviso que tínhamos nas passagens de nível das estações e apeadeiros. E é uma das qualidades do novo MO: quando nos aproximamos dele para lhe falarmos ele pára, olha-nos nos olhos e escuta. Creio que este MO nos vai ajudar a descobrir esta dimensão da escuta e da atenção ao outro. Depois, quando fala, é num tom calmo e baixo. Hoje quis jantar com os membros da JIP (Junta Ibérica de Provinciais: Portugal e Espanha) que estão no Capítulo. Para nos ouvir. Pediu que nos apresentássemos, que além do nosso nome e província disséssemos o que fazemos na Ordem e no nosso apostolado. E agradeceu-nos termos jantado com ele.
Ao estar num Capítulo Geral temos a percepção da universalidade da Ordem. Línguas diferentes mas entendemo-nos (além das nossas ainda se mete o latim, com grandes queixas de alguns irmãos!), ideias diferentes que discutimos para tentar chegar a um consenso, problemas diferentes mas o mesmo impulso para o bem comum. O ex-MO dizia-me que todos os frades deviam fazer esta experiência de passar por um Capítulo Geral. Eu não digo tanto mas, se ao menos os que passamos por eles mudássemos a nossa concepção sobre a Ordem e sobre o que é ser dominicano, em todas as suas dimensões, já valia a pena fazer Capítulos Gerais.

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