Antologia poética


Ontem à noite, enquanto lia o Diário de Sebastião da Gama (que já estou a acabar...), veio-me à ideia construir uma antologia poética. A minha antologia poética. De facto, há alguns poemas que nos tocam, que nos dizem alguma coisa, com os quais nos identificamos, mesmo que o estilo do poeta não nos agrade muito.

Vou fazê-lo à moda antiga: escrevê-los num caderno para eles dedicado. E vamos ver no que dá.

A abrir vou escrever o poema que mais gosto (gostos não se discutem e é interessante ver os gostos dos outros), de Florbela Espanca, Neurastenia. Se me perguntarem porquê talvez a única resposta seja pela pena que sinto para com esta mulher. Uma mulher infeliz nos afectos, infelicidade essa espelhada nos poemas, nos contos mas sobretudo no seu Diário.
Como é sabido, ela suicidou-se no dia do seu aniversário (8 de Dezembro) do ano de 1930. Suicídio premeditado, revelado no seu Diário, no dia 20 de Novembro, por exemplo quando escreve: "A morte definitiva ou a morte transfiguradora? Mas que importa o que está para além? «Seja o que for, será melhor que o mundo! / Tudo será melhor do que esta vida»". Mais sofrente e desesperador é a única frase que escreve no último dia (2 de Dezembro) em que diz: "E não haver gestos novos nem palavras novas!"

É este desassossego, esta inconformidade que admiro nos Poetas. E foi Florbela Espanca a primeira Poetisa que me mostrou este lado "espiritual" da poesia. Por isso o poema Neurastenia vai ser o primeiro. Fica aqui registado:

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Marias!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza...

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem asas pela Natureza...

Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...

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