O calvário do mundo


Sexta-feira, dia de trabalho no hospital. Que hoje me pareceu uma verdadeira Via-Sacra: as estações são os quartos onde estão os Cristos deitados na sua cruz que é a cama com cireneus - os médicos e todos os que cuidam deles - e até a pouca companhia como Jesus na cruz. Um verdadeiro calvário. Não me entendam como se dissesse que o hospital é um lugar terrível ou até evitável. Não, a cama de um hospital é um calvário, no que traz de sofrimento, de aceitação ou revolta, de esperança e de confiança em Deus, se nele crêem.

Três estações marcaram este dia (estação quer dizer paragem).
Um doente que recebe uma notícia não muito feliz, que também não era nada que não estivesse já no horizonte. Este doente, depois da visita do médico e já comigo diz-me: clinicamente não há tratamento eficaz, estou com Deus, quero preparar-me espiritualmente para ter forças. E comungou. Aqui temos um Cristo que hoje transmitiu assim a sua entrega, que não é muito diferente da de Cristo na Cruz: "Pai, nas tuas mãos entrego a minha vida".
O segundo, que visitei pela primeira vez, mesmo sem ter sido chamado, pede-me para estar a sós, mas depois não diz nada, diz só que tem sede. Também este é o trabalho de um capelão: silêncio, prestar alguma ajuda, que nesta doente foi dar-lhe a sorver, numa esponja, alguma água. Apesar de dizer que é católica - e eu sabia que era - não quis comungar nem falar. E ali estive a olhar para ela, quase como aquela citação de Isaías sobre o servo de Deus: sem aspecto atraente, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto. Impressionou-me o olhar no vazio, forte, que fala mais do que boca. Olhar como o daqueles Cristos que estão quase a expirar. Disse-lhe que ia rezar por ela, ela agradeceu. Um outro olhar, uma outra atitude, talvez uma outra expressão, como também a de Cristo na Cruz: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?"
O terceiro doente foi inesperado. Resultado de um telefonema durante o jantar - eu que nunca ando como telemóvel no convento - em que me pedem que vá administrar a Unção dos Doentes a um doente que está nos cuidados intensivos. Lá fui. E, naquele lugar, para mim o mais sensível e o mais respeitado de um hospital, porque também talvez o mais inesperado, com mais dois familiares do doente, rezámos a Deus para que olhasse para ele com o mesmo olhar com que olhou para o seu Filho.
Há umas semanas, numa entrevista, disse que, para quem tem fé, estas questões do sofrimento e da morte são encaradas com mais facilidade. Hoje diria que, provavelmente, para quem tem fé, todo este sofrimento pode ser encarado com mais facilidade.
Hoje, sexta-feira, no hospital, fiz a minha Via-Sacra. Várias pessoas, o mesmo rosto: o de Cristo sofrente e padecente. A Ele lhe peço que a todos os que sofrem lhes dê a paz.

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