Arcas encoiradas


Carriças, toutinegras, calhandras, verdelhões, milheiras, tanjasnos, tordas, marantéus, petos-reais, poupas, gralhas, patuscos, estorninhos, rolas, cucos, rouxinóis, pardais, melros, andorinhas (pitas de Nossa Senhora, conhecidas assim no Norte do país), são tudo nomes de aves. Cheguei lá quando comecei a ler estes últimos, que são mais conhecidos.
E palavras como crestar, redolente, silha, rifão, anexim, arrobes, cibo e bruxuleante? Não, não ando a ler o dicionário de língua portuguesa de fio a pavio. Ando a ler as "Arcas encoiradas" de Aquilino Ribeiro. E é um encanto. As variadas espécies de aves apareceram no capítulo sobre o Outono no Norte; estas últimas no capítulo sobre o mel.
Mas para ler Aquilino é preciso um dicionário. E já não chega um simples dicionário de língua portuguesa. Algumas palavras já não tiveram a dita de constar... Pode-se ler Aquilino sem o dito dicionário, que é o meu caso, mas ficamos sem perceber a tensão e a intenção daquelas palavras e não de outras, naquele sítio, para descrever a vida ancestral, que é o tema destes estudos e opiniões. Aquilino é um homem rico de palavras. A sua obra é um dicionário em movimento. As palavras aparecem não para definir, como num dicionário vulgar, mas aparecem contextualizadas o que nos dá conta de uma língua viva, rica, que nós, por comodidade, queremos simplificar. Para os que não sabem o que é uma calhandra - eu não sabia! - aqui fica, a título de exemplo, a fotografia deste pássaro que, para um citadino, poderia ser confundido com um simples pardal mas não é; por isso Aquilino distinguiu uns dos outros para que notássemos as diferenças. Curiosamente, expressões que Aquilino usa e que eu só tinha ouvido da boca dos meus pais e dos meus avós, apanho-as aqui. Ontem percebi porque é o meu pai chamava à minha tia mais nova de "carriça": é que a carriça é uma ave muito activa e fugidia, como a minha tia, quando era pequenita.

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