Liturgia da festa de São Domingos - II

À noite, antes do descanso, e antigamente a meio da noite, as comunidades dominicanas reúnem-se para celebrar o ofício de leituras. Antes do Concílio, este ofício tinha o nome de Vigílias, porque era demorado, pela sua extensão e intensidade. Agora, com a reforma conciliar, tem o formato da hora normal do Ofício de Leituras.
O Ofício começa com o hino Novus athleta Domini (O novo atleta do Senhor). Os hinos do Ofício de São Domingos, são retirados do Protótipo de Humberto de Románs. Por isso se pode falar de uma tradição dominicana ou até de um rito dominicano. Este hino, que proclama São Domingos como atleta de Deus, vai narrando ao longo das suas estrofes as várias dimensões espirituais de São Domingos: Atleta do Senhor, Homem evangélico de intacta pureza, de oração incessante e plangente.
E é neste ambiente noturno, lembrando São Domingos, que dedicava os dias à pregação e as noites à oração, que as comunidades recordam o que dele se dizia, no que diz respeito às vigílias, que São Domingos, noite fora, dedicava a Deus.
Pode escolher-se uma de duas séries de antífonas: uma mais bíblica e a outra mais sobre a vida de São Domingos e das suas virtudes, que é a que vamos seguir.
O primeiro salmo é o salmo 41. Um salmo individual, de súplica, que fala da alma que tem sede de Deus, mas que se aplica a São Domingos, sobretudo no versículo 9 que diz: “De dia mande-me o Senhor a sua graça; de noite canto e rezo ao Deus da minha vida”. A antífona que acompanha este salmo canta uma característica de São Domingos que falava sempre de Deus na pregação e com Deus na oração. E isto recomendava aos seus irmãos.
A segunda antífona descreve também o tipo de oração típica de São Domingos, a oração de intercessão: “Compadecia-se do próximo e desejava ardentemente a sua salvação”. As impressionantes narrações das vigílias de São Domingos, dizem-nos que muitas vezes chorava e exclamava: Que será dos pecadores? O salmo que se canta é o 76, que fala da oração incessante de quem o reza, durante a noite, e que se aplica também a São Domingos, que passava as noites em oração.
O último salmo é o 144. Um salmo que louva a grandeza de Deus, e também a sua misericórdia, que São Domingos tão bem pregou. A antífona que lhe corresponde destaca a sua dimensão evangélica, quer no falar quer no agir.
Depois dos salmos é tempo de escutar as leituras. Aliás, esta hora chama-se ofício de leituras porque as leituras são longas e em ambiente de vigília, dão espaço a um melhor acolhimento da Palavra.
São lidas duas leituras. A primeira, sempre bíblica; a segunda é hagiográfica. Como leitura bíblica escuta-se a passagem da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. O tema da leitura, que neste dia também se aplica a São Domingos, é a urgência e missão da pregação de Cristo e Cristo Crucificado. Depois do responsório, qua atualiza a leitura, escuta-se, então, a leitura hagiográfica. De quatro pode escolher-se uma. A primeira é do Libellus do Beato Jordão de Saxónia, que confirma o que se rezou anteriormente: em tudo se manifestava como homem evangélico. O responsório que lhe corresponde é o dos mais bonitos da tradição dominicana: O Spem miram (Ó maravilhosa esperança). Outra opção é a leitura do primeiro modo de orar de São Domingos. Os seus contemporâneos, impressionados com a sua maneira de orar, escreveram um opúsculo com os nove modos de orar de São Domingos. O primeiro fala da atitude de oração de São Domingos. A terceira leitura opcional é um excerto de uma pregação de Savonarola, que elogia São Domingos como o grande sacerdote que reformou a Igreja. Finalmente, a quarta leitura que se pode escolher, é a que aparece na Liturgia das Horas da edição latina, que tem como tema a vida de São Domingos que só falava de Deus ou com Deus.
Terminada a liturgia da palavra, esta celebração termina com o cântico do Te Deum, um hino do século IV, em que toda a criação louva a Deus pelas suas maravilhas, e a oração conclusiva, de que já falámos.
(imagem: Javier Serrano/Iturgaiz: modos de orar de São Domingos)
Continua...

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