Os dias que vão correndo

Deixo aqui o que vivo desde há uns dias. Episódios da vida, quadros que poderiam fazer parte de uma sala de exposições. Nada de siginificante mas cada coisa só tem o significado que cada um lhe dá.
1. Conversas com as pessoas. Estes dias são-me gratos pelas conversas informais com as pessoas. Como ando sempre a pé dá tempo para dizer bom dia às pessoas, perguntar como vão e como estão, algumas provocam a paragem para nos contarem ou desabafarem algum assunto. A mesa é bom espaço de convívio e conversa. Cada vez mais admito a hospitalidade das pessoas. O gosto que têm em receber, a alegria, as lembranças…
2. O meu pai. A figura do meu pai ainda está presente em Cotelo. Muita gente se lembra dele e por bem. Descobri episódios da vida dele que me comovem. Do meu pai, muito menos expansivo que a minha mãe, pouco ou nada sei da sua infância e dos seus tempos na aldeia. Compreendo. As infâncias difíceis não trazem recordação. Que o meu pai valeu a uma senhora por três vezes, que quando a família mudou de casa para uma outra aldeia o meu pai, pequenito, levou às costas, numa saca, uma gata que estava para parir… Hoje, depois do almoço, uma tia paterna contou-me o passado deles. Não passavam fome mas ainda são do tempo de “uma sardinha para três”.
3. A novena do Fojo. O fojo é um lugar da freguesia de Gosende, onde está um santuário dedicado à Senhora do Refúgio. Creio que já escrevi aqui sobre isso. Este ano, pela primeira vez, participo nos dias que posso, na novena que lhe fazem. No primeiro dia foi ainda à moda antiga: almoço e caminhada a pé para o Fojo. Ajudei o pároco nas confissões e lá estive na Adoração ao Santíssimo, Terço e Missa. Gosto muito do Fojo. Quer pelo espaço quer pela capela que, para mim é uma preciosidade. Entendesse-me eu em história de Arte e já teria tema para um Doutoramento.
4. Um telefonema típico. Hoje ouvi um telefonema que me parecia as cartas de antigamente. O filho, emigrante na Suíça, telefona à mãe para saber como estão as coisas. As novidades são as da terra e as do dia-a-dia: que o senhor padre almoça cá em casa, que ontem trouxeram uma carrada de batatas e que a Ramalha (nome de uma vaca) pariu uma vitela esta noite. Agora tem que se chamar o veterinário para lhe pôr os brincos e registá-la. Que nós, por cá, tirando as saudades, estamos todos bem. Também durante o almoço foi o peditório “para os santos da igreja”. Cada santo da igreja paroquial tem, nas aldeias, um mordomo que, uma vez por ano, creio eu, faz um peditório pelas casas da aldeia para os santos. Eu dei uma esmola para dividirem por todos e um extra a São Sebastião, padroeiro dos solteiros e a São José, advogado dos que governam a casa. Mas a maior parte da esmola deve ir para a Senhora de Fátima por ser quem é ou para Santo António, que por aqui protege o gado.
5. Um livro emprestado. Em Cotelo vive uma professora aposentada. Foi a da minha mãe e de muitas gerações depois dela, até há vinte anos. Quando vou a pé é uma das pessoas a quem paro para falar. No outro dia falámos das origens da família, nobres certamente, pela casa onde vivem. Hoje, quando regressava a Feirão, lá estava um livro que contava a história toda. Pedi-lho emprestado. Não só para ler o capítulo que ela queria informar-me melhor mas também porque tem um sobre Feirão. Descobri hoje três coisas: duas informativas – o nome da terra do meu pai é Cotelo da Serra e que Feirão fica a 1150 metros de altitude – e a outra que me intrigava e que diz respeito à ribeira que passa ao fundo de Feirão para encher o rio Balsemão. Os mapas antigos chamam-na de Ribeira das Bichas, pelas sanguessugas que lá se multiplicam. Tudo o resto, desde 1527 que é a data do primeiro registo, nunca evoluiu muito nem nos campos nem nas pessoas: se naquela altura os habitantes eram 50 e em 1750 pouco mais de 150, hoje o número não deve ser muito maior.
(Fotografia de um troço da Ribeira das Bichas, em Feirão)

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