sábado, 31 de outubro de 2009

O Novembro que aí vem


Está a acabar de ser dobada a meada de Outubro. Com as suas penas e as suas alegrias, com os seus cansaços e com os seus dons, com projectos realizados, outros que não viram o seu dia e outros que transitam para este mês... e assim termina mais um mês deste nosso ano de 2009. Aí vem Novembro. Ainda só se deixa sentir pela mudança da hora e pelo cheiro de castanhas assadas. O tempo ainda não nos diz que estamos no meio do Outono...

Para os católicos é um mês recheado de santos, ou não começasse logo, no dia um, com a celebração deles todos. Dia seguinte, dia de finados. Bonita palavra esta... os que chegaram ao fim... Irei a Fátima ao funeral de um frade que hoje morreu com 78 anos. Dia três, dia de São Martinho, não o das castanhas mas o de Lima, dominicano, exemplo de humildade e de entrega aos irmãos. Dia quatro, dia de São Carlos Borromeu; quase dominicano, contemporâneo e amigo de Bartolomeu dos Mártires, homem das grandes conquistas do Concílio de Trento. No dia seis temos, pela primeira vez, a celebração do Santo Condestável... antes era só beato. Dia nove, dia do aniversário da basílica de Latrão, "omnium urbis et orbis ecclesiarum Mater et Caput" (Mãe e cabeça de todas as igrejas da cidade [de Roma] e do mundo). Dia onze vem, então, o grande santo deste mês: São Martinho. No dia quinze, celebramos um grande vulto (santo) da Ordem dos Pregadores: Santo Alberto Magno. Seis dias depois uma festa mariana: a apresentação de Nossa Senhora no Templo. No dia seguinte, santa Cecília, padroeira dos músicos. Este ano coincide com a festa de Cristo-Rei que terá, na igreja do Convento, uma celebração alargada. Ainda em Novembro começamos, este ano, o Advento (preparação litúrgica e espiritual do Natal). Não podia terminar o mês sem a festa de Santo André.

É, também, mês de muitos aniversários: uma tia minha, o meu irmão, um primo, alguns frades da minha comunidade... até eu faço anos num destes trinta dias... Fazer anos é bom: aproxima-nos de Deus.

Isto tudo se Deus quiser porque nele vivemos, nos movemos e existimos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ter o Senhor em casa


A minha casa não é uma casa comum. E a minha família não é uma família comum. A minha casa chama-se convento e a minha família comunidade. Hoje celebrámos, uns com mais alegria do que outros (eu celebrei com muita alegria), o quarto aniversário da dedicação da igreja do convento onde moro. É um edifício simples, que merece a atenção de arquitectos e amantes da arte. Vêm grupos, de cá e de fora, para ver esta igreja. Mas vêm-na sob o ponto de vista da estética: é bonita, é simples, apela ao transcendente, sente-se a paz; é o que vão dizendo quando por cá passam.
Mas esta igreja é mais que o betão, é mais que os vinte e um metros de altura, é mais do que a luz que nela entra, é mais do que os bancos engraçados, mais do que a porta de cobre e do que a cruz moderna. Pelo menos para mim.
Esta igreja é um espaço de encontro e de reunião que serve duas comunidades: a dos frades que nela rezam ou sozinhos ou em grupo e a comunidade de todos os que se juntam às nossas celebrações. Não são duas comunidades diferentes; uma está ao serviço da outra.
E é este o sentido de um convento e de uma igreja na cidade de Lisboa: portas abertas ao serviço de quem nos procura e ter a ousadia de ir ao encontro dos que não nos procuram.
Esta igreja diz-me muito. Foi-me "dada" há quatro anos. Estava eu em Feirão, a passar férias, num final de tarde de verão, quando o Padre Provincial me liga a dizer que o Capítulo Provincial me tinha nomeado "reitor" da igreja, naquela altura ainda em construção e com muitas dívidas. Pensei: porquê eu?
Quatro anos depois cá continuo eu a acolher, a pregar, a ajudar... Digo "eu" mas somos muitos: frades e leigos que afectivamente nos ligámos na amizade e no interesse comum.
Esta igreja diz-me muito porque a vi nascer. Diz-me muito porque vejo que muitos por aqui passam, uns com lágrimas, outros com sorrisos, pequenitos, da minha idade e mais velhos se sentem em casa. Esta igreja diz-me muito porque se conseguiu uma harmonia de celebração. Harmonia e qualidade.
Esta igreja diz-me muito quando está cheia de gente e de luz mas diz-me ainda mais quando está às escuras, só com um ponto vermelho de uma vela que indica ali uma presença: tenho o Senhor em casa! Esta igreja diz-me muito quando nós, frades, nos reunimos para rezar mas também quando estou sozinho a sentir o escuro, o silêncio e a paz.
Esta igreja diz-me muito porque é a casa de Deus e a casa dos Cristãos. É a minha casa.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Entre abóboras, couves e nabos


Quem me visse hoje de manhã diria que era um lavrador; ou se soubessem que era frade, diriam que era trapista. Uma manhã passada numa quinta a acartar abóboras e a apanhar nabos, grelos, lombardos, cenouras e couves. Bendito seja Deus. Na quinta do Ramalhão, propriedade das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, com a Prioresa a ajudar (na verdade ela é que cortava as hortaliças!), no dia em que fazia anos! Terra abençoada. Tudo o que ali se semear ou plantar tem sucesso! Que bonita manhã de Outono: uma quinta com o nevoeiro fresco de Sintra, um lavrador a arrancar cenouras, outro a cortar canas, terras lavradas, as laranjeiras a darem cor aos seus frutos, as ameixoeiras a quererem florir, a combinação entre o castanho e o verde, a água que corre em várias fontes... Que riqueza e que beleza! Para as Irmãs que, generosamente, nos dão estes frutos da terra e do trabalho humano e para mim que ainda posso sair uma manhã para poder desfrutar da beleza da terra trabalhada. Depois de carregar tudo na carrinha e de ainda trazer um frasco de funcho (erva-doce para os continentais), que vou aproveitar para fazer alguns "Pães-por-Deus", no sábado, se tudo correr como estou a programar, e de um saco de feijão frade, com as respectivas despedidas e agradecimentos, toca de vir para Lisboa. À chegada, o trabalho inverso; descarregar tudo. Enquanto corto e descasco uma grande abóbora (a que está na fotografia e pesa, pelo menos, uns 50kg!), um confrade, bastante mais velho que eu, trata de lavar as cenouras e os nabos. Os grelos já se comeram ao almoço. Os lombardos e as couves foram para o frigorífico. E assim se passou uma manhã de quinta-feira.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Uma nova estante


Há uma anedota entre ambientes religiosos sobre o que é um frade/monge de um convento/mosteiro mostra em primeiro lugar a um visitante: o beneditino leva-o à igreja, o franciscano leva-o à cozinha e o dominicano leva-o à biblioteca.
Dominicanos e livros têm tudo a ver. Normalmente (modéstia à parte) as nossas bibliotecas são boas, e não dispensa de que cada frade tenha a sua própria biblioteca, de acordo com os seus gostos, interesses e sensibilidades.
Hoje, depois de uma reunião da equipa de bibliotecários do convento, decidi fazer também um ajuste aos livros que tenho no meu quarto. E esta é a nova estante no meu quarto. Dedicada exclusivamente à literatura profana. Livros oferecidos, herdados ou comprados, esta estante começa pelos portugueses Aquilino Ribeiro (pensei que tinha o primeiro livro que li dele, era ainda miúdo, mas não tenho!), Eça (com o crime do Padre Amaro), Torga (continua a faltar-me o primeiro volume do Diário), Saramago (Tenho alguns, conseguirão contar uns oito, falta o Caim que está a ser lido e o Evangelho segundo Jesus Cristo, ou melhor, segundo o autor, que não há-de ter a dita de se acomodar nesta pobre e humilde estante), Florbela Espanca e por aí fora... Na estante de baixo temos poesia, pouca, sobretudo Florbela Espanca, a do Torga que, nunca tendo editado um livro de poemas apareceu há pouco com os que ele escreveu no Diário, Camões nos seus Lusíadas, o Frei Luís de Sousa do Garret (não é poesia mas também não é romance), e do outro lado da estante outros que não têm grande critério excepto, imaginem, os Lusíadas traduzido do Português para Latim por um frade dominicano português! A meio está uma cruz. É o protótipo da que se colocou na igreja do convento em Agosto.
Descemos um andar e entramos na literatura estrangeira, a começar pelos clássicos: O Dom Quixote (foi prenda!), Antígona, Odisseia, Ilíada... e tenho que incluir neste grupo O Pricipezinho. Também lá está Hermann Hesse, e Miguel de Unamuno, que é descoberta recente; do outro lado da estante: romance histórico. Fez parte de uma época da minha vida. Actualmente não acho muita piada. Mais abaixo temos literatura estrangeira de temática religiosa. E aqui há de tudo: Papas perversos e Rainhas trágicas, a história romanceada de três mulheres do Antigo Testamento... De todos estes livros alguns já foram lidos, outros consultados e outros ainda esperam o seu dia.
Toda esta descrição para dizer uma coisa e observar outra: dizer que um frade não tem que ter só Bíblias nas suas estantes! Observar que pode parecer vaidade estar aqui a mostrar esta estante... espero que não entendam assim porque assim não é. Como disse Cícero: "Uma casa sem livros é como um corpo sem alma ". Os livros que habitam o meu quarto, esta estante, podem não ser nada de especial, mas têm o valor que a minha cabeça lhes atribuiu. Não estão arrumados ao acaso, sei como chegaram até mim e sei que alguns deles mudaram a minha maneira de ver o mundo e de me ver a mim próprio e até de escrever e de pensar. Para mim, um livro é um professor com quem tenho muito a aprender.

Tomada de hábito

Ontem, devido ao adiantado da hora a que cheguei a casa e ao cansaço de um dia de Domingo, não consegui vir colocar este post. Porque ontem, dia 25 de Outubro, fez 11 anos que tomei o hábito da Ordem Dominicana.
O hábito não é, no seu primeiro sentido, um sinal de pertença. É, antes de mais, um convite a mudar de vida. O Beato Jordão de Saxónia, sucessor de São Domingos no governo da Ordem, tomou hábito numa quarta-feira de cinzas. Diz ele: "Tendo chegado os três juntos ao Convento de Santiago, quando os irmãos cantavam Immutemur habitu (mudemos as nossas vestes pela cinza e o cilício...), de surpresa, mas oportunamente, fomo-nos colocar no meio deles e, despojando-nos rapidamente do homem velho, vestimos ali o novo, para que, o que eles cantavam, fosse em nós uma realidade".
Actualmente as coisas, na Ordem, não são feitas de surpresa. E por isso a minha tomada de hábito, como a de todos os outros frades, foi programada. Acontece no início do noviciado. Logo nos primeiros dias ganhamos o humilde título de "frei". Depois, mais ou menos um mês depois, faz-se esta cerimónia, que antes era reservada e que agora se faz no decorrer de uma missa. Depois da homilia, o Padre Provincial senta-se e o candidato aproxima-se. E então, enquanto se canta o hino Veni Creator Spiritus (Vinde, ó Espírito Santo), o Provincial, com a ajuda do Mestre de noviços, impõe o hábito ao noviço.
É um momento emocionante. Talvez naquele dia e nos meses seguintes, o hábito tenha sido para mim uma veste de glória. Hoje para além de ser uma honra poder vesti-lo, é também uma grande responsabilidade. Identifica-nos a uma Ordem, a mártires, a santos, mais ou menos conhecidos, mas, sobretudo, deve identificar-nos com o apelo evangélico à conversão. O hábito não faz o monge, mas o monge fica bem de hábito.
(Ainda sobre o meu dia de ontem: comecei a ler o Caim. Não devemos ver em Saramago, no que ele diz e no que ele pensa, um ataque cerrado a Deus e à Igreja. A leitura deste livro acaba por ter, para nós, uma finalidade positiva: ficamos a saber o que é que os ateus pensam de Deus [do seu deus?, do deus que criaram?]. E continuo a cismar nisto: como é que um ateu se deixa provocar pela Bíblia e por Deus que diz não aceitar nem acreditar?)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Funeral


Venho de fazer um funeral. Foi um confrade que me pediu. Não é um momento fácil nem para a família mas também não o é para o padre. Tenho pena que não haja uma fé mais forte na ressurreição. E que a Igreja, e as igrejas, não valorizem mais este momento da nossa existência. Talvez porque apanhamos muitos católicos daqueles a que chamamos "não-praticantes", e então é tudo apressado, corrido, e com falta de gosto. Mete-se a urna numa cave sem janelas nem arejamento (chamemos-lhe, por respeito à cave, capela mortuária...) o defunto virado para o altar, flores à volta, muitas ou poucas conforme o dinheiro e a popularidade que se tenha, com duas lâmpadas eléctricas a ladear o altar (já se perdeu a sensibilidade para a beleza de uma vela a arder...), cadeiras de plástico, e aqui temos montado o velório.

Depois do velório vem a missa de "corpo presente", obrigatória (faz parte do serviço), mesmo que quase nunca tenha ido à missa. Entra o padre e há movimentações na sala: grande parte das pessoas sai e, os que estavam fora, a falar ou a fumar, entram, talvez para ver quem é o padre ou para ver se a missa é bem rezada. Ninguém percebe que o padre não está ali para rezar a missa ao morto... está ali para rezar a missa aos vivos, pelo morto. Ninguém percebe que a missa é para os vivos e, portanto, dê o padre muitas graças a Deus se tiver quem lhe responda aos Dominus vobiscum. O morto precisa, realmente, das nossas orações. E quer ele quer os familiares precisariam de um melhor acolhimento do que umas cadeiras encostadas à parede de uma capela mortuária, e de uma missa rápida só para cumprir o preceito e a tradição. Mas mais do que isto tudo, precisamos de ambiente de ressurreição e não de morte e de trevas que nos sugerem estes cubículos só com uma porta que, às vezes, nem dá para a rua.
Estamos a esvaziar a estética, a esfriar momentos que poderiam aquecer-nos e confortar a nossa fé.
Talvez porque não tenho uma paróquia digo estas coisas sem conhecimento da realidade. Talvez porque este funeral tenha acontecido em dia cinzento não tenha ajudado nada. Mas que é desconfortável é.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Outono



Outubro e Outono. Duas palavras irmãs. Apesar do Outono começar em Setembro, só neste mês, e este ano já no seu final, é que o começamos a sentir. Começam as chuvas, as folhas caducas desprendem-se das árvores, baixam as temperaturas, mais roupa na cama e no corpo, para mim mais nostalgia, mais música clássica (chuva na rua e música no quarto, as quatro estações de Vivaldi, fazem uma boa harmonia), é aonde me levam os sentimentos destes dias cinzentos fazendo os possíveis para que cinzenta não seja a vida, que frio não tenha a alma e que o sol aqueça o coração.
Outono rima com sossego, com leitura, com ocupação. Rima com acordar à mesma hora mas, porque é Outono é também mais escuro. Não rima com frio mas rima com ritmo, talvez o mesmo com que a chuva cai (ainda é uma chuva mansa) , o mesmo ritmo de um compasso calmo e fugaz, que sai de um violino ou de um oboé. Outono rima com vida. Esta é uma estação da natureza e da vida. Lembra o efémero, que tudo muda, que tudo passa, mas que ainda não é a última estação.
Hoje, Outono rima com vida nova. Nasceu o Francisco Maria, filho de uns grandes amigos meus. Adiantou-se ao tempo de nascer. Para ele o Outono é Primavera. Que conte muitas!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Caim e Saramago


Não se fala de outra coisa. E curiosamente não se fala tanto do livro que Saramago escreveu mas sim do que ele disse. E são coisas diferentes. Eu até diria que são quase duas pessoas diferentes.

E também não estranho nem o que ele disse nem a temática escolhida. Que se diz ateu e anti-religioso é de todos conhecido; que escolha um tema bíblico também não é a primeira vez que o faz.
Mas desta vez o que disse foi demais. Porque insultou todas as religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo), e, consequentemente, todos os crentes, mesmo que não sejam praticantes. Seria de esperar, de uma pessoa culta e que até recebeu um nobel, que tivesse um mínimo de respeito por quem tem fé e que não achincalhasse livros que para quem tem fé são sagrados, pessoas que para quem tem fé merecem respeito, e, sobretudo, tendo em conta uma certa tradição cristã, que não é só religiosa, que respeitasse a gente do país ao qual pertence, mesmo que barafuste e ameace que deixará de ser português.

E ainda só estamos no que ele disse, que merece ainda algum comentário. O que os autores da Bíblia fizeram não devia ser novidade para o nobel da literatura. Eles, como eram crentes, interpretaram a sua história à luz de Deus. Arranjaram explicações sobre a origem das coisas à luz de Deus. Demos o exemplo de Caim. Creio que todos os que estamos ligados à Bíblia sabemos que se trata de um mito de origem, e que esta história serve para explicar que, tendo entrado o mal no mundo com o fruto proibido (também isso é um mito de origem), a desgraça que veio depois foi a do homicídio. E Saramago, homem culto, deveria saber que qualquer escritor, seja ele quem for - e ele também o faz - interpreta e conta, à sua maneira, acontecimentos e explicações originais. E nisto temos que tirar o chapéu aos escritores do tempo do livro do Génesis que tiveram muito mais imaginação do que o nosso Saramago. Aqueles inventaram tudo; este, como não gosta da história, aproveita o que lhe interessa para, como diz o povo "levar a água ao seu moinho".

Em relação ao livro, há pouco a dizer. Porque ainda ninguém o terá lido. Eu tenho-o aqui, à minha direita. Gosto de Saramago escritor. Obriga à atenção. Aprende-se pontuação, aprende-se português. E não me digam que é a mesma coisa que ler aqueles livros 'pimba' que aparecem por aí. O meu Caim vai esperar ainda uns tempos. Tenho que acabar a "Casa de Escorpião" de Aquilino Ribeiro. Vou para a última novela. Aquilino, ao menos, não faz chacota nem de Deus nem da fé...

Acho que Saramago é um pós-ateu (não sei se existe pós-ateísmo). Deus deve-lhe falar muito alto lá dentro dele. E como ele não quer nem acreditar em Deus nem ouvi-lo, e acha que tem aquela idade e aquele estatuto em que se pode dizer e fazer tudo, ataca Deus e ataca todos os que crêem em Deus.

Só gostava que os crentes, que vão ler este livro de Saramago, lessem primeiro o original, que está na bíblia, logos nos primeiros capítulos do primeiro livro, e depois lessem a versão segundo Saramago.

Miguel Torga também escreveu sobre Caim. Mas foi para falar de terrorismo e condenar o fanatismo. Em Coimbra, 10 de Abril de 1983, escrevia assim: "Terrorismo no Algarve. Apenas uma vítima a mais de um mal que, desgraçadamente, é endémico no mundo. Desde Caim que o homem mata o semelhante por fanatismo. Todo o assassino é um sectário que serve um deus. O que impressiona é a natureza dos deuses servidos em certas horas". Aqui está, no meu modesto modo de ver, uma melhor interpretação do relato bíblico.




domingo, 18 de outubro de 2009

Lágrimas e romãs

Não. As romãs não fazem chorar. Lágrimas e romãs foi o que me deram no final da missa da tarde. O António trouxe-me umas romãs, óptimas, biológicas, que vão dar para fazer um licor, que espero que me saia bem. Pelo menos os bagos já estão a macerar. As lágrimas, essas, vieram inesperadas do Pedro, que no final da missa, veio falar comigo. Foi um momento emocionante para os dois. Ao António agradeço as romãs; ao Pedro agradeço o ter vindo falar comigo. Não dissemos muitas coisas. Tentei dar-lhe força mas, se calhar não consegui.
Pedro, não sei se vens aqui mas hoje rezo por ti e pela tua família. Pelo teu pai que partiu e agora está junto de Deus. Pela tua mãe e pelo teu irmão, que só conheço de vista, da missa das seis. Por ti, para que tenhas força e que, nestes dias de dor e de ausência, sintas a presença de Deus e a do teu pai que agora está em paz, no melhor sítio que é o coração de Deus. Que a tua fé se fortaleça com o que ouves e com o que rezas e que Jesus seja a força da tua vida. Que o luto se converta em alegria e o sofrimento em esperança. Espero um dia falar contigo, com mais calma e não na pressa da sacristia. Esta noite vou rezar por todos os que sofrem a perda de alguém e peço que rezem por mim.

O Domingo


Para nós, padres, o Domingo é o dia de mais trabalho. Porque estamos ao serviço dos outros, temos esta missão da presidência da Eucaristia. Há padres que celebram muitas missas ao Domingo; ou porque não têm colaboradores ou porque há escassez de mão-de-obra (entenda-se falta de padres) e têm que se desdobrar para que os católicos não fiquem, neste dia, sem missa. Considero-me um padre aliviado neste campo. Normalmente celebro duas missas ao Domingo: uma ao meio-dia aqui no convento e outra às seis da tarde, numa paróquia da cidade.

Mas o Domingo é mais do que a Missa. Se bem que a Missa seja o momento principal deste dia, aqui no convento é um dia muito agradável. Sempre os mesmos rituais que vão passando por várias mãos. Acordamos um pouco mais tarde que nos dias de semana, rezamos as Laudes, tomamos o pequeno-almoço e depois, os que ficamos em casa, fazemos várias tarefas: uns lavam a loiça outros começam a preparar o almoço e outros ainda põem a mesa. Depois da missa conventual sentamo-nos todos numa mesma mesa (à semana, com muita pena minha, sentamo-nos em várias mesas redondas...) e almoçamos com calma e alegria.

Há já duas semanas que me toca pôr a mesa. Nunca pensei muito se gosto ou não. Mas hoje gostei. Talvez pelo sol que entrava no refeitório. Agora os rituais vão continuar: imprimir a homilia, receber as pessoas que vêem à missa, presidi-la com outros padres, frades e pequenos acólitos, com a música que nos envolve no mistério que celebramos, e depois a alegria de nos podermos sentar à mesa e de podermos ter comida. Dou graças a Deus por tudo isto. E pelo Domingo. Torna-se um dia "atípico" mas muito saudável.

sábado, 17 de outubro de 2009

Um livro novo


Hoje tem sido um dia calmo. De silêncio. Os frades mais novos foram de passeio, alguns estão em Fátima, ficámos cá poucos. Depois do almoço fui a uma livraria inspirar-me para uma prenda que vou oferecer daqui a pouco a uma amiga minha que faz hoje anos. Não estava nada inspirado mas, de repente, encontrei um livro muito interessante e de grande interioridade. "Saber esperar" é uma colectânea de pensamentos de um frade trapista do início do século passado, frei Maria Rafael Báron (1911-1937), canonizado no passado domingo, homem de existência breve, devido a uma grave doença que ele nunca encarou como uma desgraça mas como um deixar-se levar por Cristo, fazendo a sua vontade e sofrendo com ele e por ele. Como acontece algumas vezes, comprei dois: um para ela, outro para mim. E o meu já o utilizei. Vou falar deste místico amanhã, na missa, a propósito do sofrimento.

Partilho convosco um dos 1010 pensamentos que este livro tem: "Não te preocupe nem o choro nem o riso. Que mais dá? O barro é sempre barro e não podemos mudar; o importante é que esse barro seja Deus e que Ele faça o que quiser e que tudo nos leve a Ele".
Como o sofrimento pode levar à sabedoria...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Um ritual

Não é hábito nem costume, é simplesmente um ritual. Vontade de sair de casa, percorrer cerca de cinco quilómetros, de pé ligeiro, pelos arredores da sua casa. E lá vai ele, todos os dias, menos quando não pode, fazer a sua caminhada, pelas ruas do bairro. E enquanto vai andando, vai vendo o recolher da cidade, autocarros mais vazios, táxis que voam, pessoas que passam, umas ainda a chegar do trabalho, outras que, como ele, também fazem a sua caminhada. Enquanto vai, de ténis calçados, rua acima, rua abaixo, lá vai passando as contas do rosário, entarameladas com o que lhe vai passando na cabeça. E vê as plantas do prédio, sente aquela frescura, só naquela sítio, frescura já tão rara na cidade, que lhe faz lembrar aquele fresco da serra; ainda ouve os grilos, naquele descampado que, não tarda, se vai transformar em mais uma torre de betão. Passear por Lisboa à noite. Sempre ao mesmo ritmo, sempre as mesmas ruas, sempre o mesmo ruído, sempre a mesma luz, quase sempre à mesma hora. Caminhadas que o cansam para passar bem a noite mas que, ao mesmo tempo, aliviam a tensão acumulada de uma cadeira onde passou quase todo o dia, ou dos problemas que tem para resolver, ou ainda das situações por onde passou e que agora lhe assaltam o pensamento. E lá vai ele, sozinho, de contas na mão a deitar contas à vida... Sozinho não! Vai com Deus, que é a melhor das companhias.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Vivo sem viver em mim

Aqui fica o mais belo poema de Santa Teresa (pelo menos para mim e, em especial, as estrofes 3 e 4). No final do poema fica um vídeo com este poema cantado em espanhol, língua em que foi escrito e que gostei pela calma e doçura da voz.:



Vivo sem viver em mim,
E tão alta vida espero,
Que morro porque não morro.

Vivo já fora de mim,
Desde que morro d’Amor
Porque vivo no Senhor
Que me escolheu para Si;
Quando o coração Lhe dei
Com terno amor lhe gravei:
Que morro porque não morro.

Esta divina prisão
Do grande amor em que vivo,
Fez a Deus ser meu cativo,
e livre o meu coração;
E causa em mim tal paixão
Ser eu de Deus a prisão,
Que morro porque não morro.

Ai que longa é esta vida!
Que duros estes desterros!
Este cárcere, estes ferros
Onde a alma está metida.
Só de esperar a saída
Me causa dor tão sentida,
Que morro porque não morro.

Ai, que vida tão amarga
Por não gozar o Senhor!
Pois sendo doce o amor,
Não o é, a espera larga;
Tira-me, ó Deus, este fardo
Tão pesado e tão amargo,
Que morro porque não morro.

Só com esta confiança
Vivo porque hei-de morrer.
Porque morrendo, o viver
Me assegura a esperança;
Morte do viver s’alcança;
Vem depressa em meu socorro,
Que morro porque não morro.

Olha que o amor é forte;
Vida, não sejas molesta,
Olha que apenas te resta
Para ganhar-te o perder-te;
Vem depressa doce morte
Acolhe-me em teu socorro
Que morro porque não morro.

Do Alto, aquela vida
Que é a vida prometida,
Até que seja perdida
Não se tem, estando viva;
Morte não sejas esquiva;
Vem depressa em meu socorro,
Que morro porque não morro.

Vida, que posso eu dar
A meu Deus que vive em mim
Se não é perdeste enfim
Para melhor O gozar?
Morrendo O quero alcançar,
Pois nele está meu socorro
Que morro porque não morro.



Ávila


Para mim é uma das cidades mais bonitas de Espanha. E hoje, dia de Santa Teresa de Ávila, é para lá que vai o meu pensamento. Recordo aquela mulher, forte, sábia, que não aceitou a mediocridade da vida conventual, que construiu o seu castelo interior, para depois reformar a sua Ordem. Entregou a sua vida a Deus, com Ele se entreteve nas suas visões e arrebates místicos. Para ela só Deus bastava. Para ela Deus estava no meio das panelas. Ela que soube conjugar a grandeza e a humildade; quanto mais humilde maior se tornava. Ela que encontrou um menino na escada do mosteiro e que lhe perguntou quem era: "Teresa de Jesus, respondeu a santa. E vós, quem sois?" Resposta do Menino: "Eu sou o Jesus de Teresa". Devotíssima de São José, o seu ecónomo, a quem recorria nas dificuldades e que sempre era por ele atendida e, por isso, pediu que todos os Carmelos fossem a este pai providente dedicados.

Recordo os meus dias felizes em Ávila. Nunca sozinho, umas vezes com neve, outras com muito sol. Cidade amuralhada que lembra o tempo da Santa e também o nosso tempo. Hoje a memória leva-me lá. Hoje sinto-me lá. E lá, sinto-me em casa.

Sublimação




"O poder é solitário e triste... e talvez por isso anda tão arredado que não consigo falar-lhe". Disse que escreveu isto a brincar... Mas não é brincadeira. Talvez porque me vai conhecendo e já vê para além da aparência. É preciso coragem para sublimar a solidão e a tristeza. É o que às vezes me falta.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Listas e conversas


Por aqui só agora começa o ano. Após a eleição e mudanças de alguns frades para outras comunidades, só ontem se fixou o número de frades que vamos viver neste convento: seremos quinze frades e um postulante. Ontem chegou o último frade. Português que vem da Índia. Li diante da comunidade a carta de assignação. Nela pede-se ao prior que o receba como legitimamente assignado e que o trate com caridade. Ele, espontâneamente respondeu: com caridade e com correcção. Somos tão pequeninos e tão frágeis para cumprir este grande mandamento da caridade. À noite, reunião do Capítulo (assembleia dos frades) para se eleger o subprior e os conselheiros. Processo lento que deve ser escrupulosamente seguido para validar as eleições. Admiro o espírito democrático da Ordem: elegemos os nossos superiores, damos consentimento para instituir certos cargos, elegemos quem queremos que nos represente, normalmente requere-se uma maioria absoluta... isto não tem nada a ver com a Liberdade de há trinta anos. Parece que é assim desde São Domingos...
Agora é tempo de fazer listas, distribuir os cargos e os serviços comunitários, conversar com os irmãos... porque entre nós, graças a Deus, a obediência não é tirânica mas dialogante. Tudo para bem da comunidade. Pelo menos na teoria e na teologia.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Pare, escute e olhe

Ser padre é mais do que falar e do que rezar missas. Há um ministério, para mim cada vez frequente e necessário, que é o do acolhimento e da escuta cristã. Respondi a dois mails pendentes para marcar encontros, para que possam desabafar comigo problemas, angústias, esperanças, projectos e alegrias também. Embora sejam sempre diálogo, a minha parte é, sobretudo, a de escutar. O que não encaro como passividade. É útil para as pessoas poderem ter alguém, do foro espiritual, com algum tempo para as escutar. É útil para mim poder dispor desse tempo para me aperceber que o tear da vida vai tecendo histórias concretas, às vezes difíceis, e com grande diversidade de cores e padrões. Recebo quem me procura no convento: vou buscá-las à porta e despeço-me delas na rua. Vêm ao meu encontro e eu ao encontro delas; e juntos tentamos encontrar Deus.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Reunião da Equipa de casais

Ontem foi a primeira reunião "a sério" da minha equipa de casais. Não vou como casal, não tenho par, mas como assistente de uma equipa de 6 casais, que se reúne uma vez por mês para estar juntos, rezar, partilhar e reflectir. Este ano decidimos ir aos fundamentos das Equipas de Nossa Senhora, que é um movimento de espiritualidade católica para casais. A reunião de ontem foi à volta do tema da "Equipa, comunidade cristã". Saber que somos humanos mas é Deus quem nos reúne, sabermos que aquele espaço é um ponto de chegada e de partida, que fortalece a nossa fé e o nosso testemunho. Falámos de um texto do século VI, de Santa Doroteia de Gaza, que falou assim da nossa relação com Deus e com os outros e que se aplica não só a equipas de casais:
" Suponde um círculo com um centro.
Imaginai que esse círculo é o mundo e o centro é Deus.
E os raios, os diferentes caminhos ou maneiras de viver dos homens.
Quando os homens, desejando aproximarem-se de Deus, caminham para o meio do círculo, à medida em que penetram no interior, aproximam-se uns dos outros ao mesmo tempo que de Deus.
Quanto mais se aproximam de Deus mais eles se aproximam uns dos outros.
E quanto mais se aproximam uns dos outros, mais se aproximam de Deus.
E sucede o mesmo em sentido inverso, quando nos afastamos de Deus.
É evidente então que quanto mais se afastam de Deus, mais se afastam uns dos outros, e quanto mais se afastam uns dos outros, mais se afastam de Deus."


Boa imagem e sugestiva metáfora para irmos avaliando a nossa fé e o nosso testemunho.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Mensagem 100




Eleito prior na segunda-feira, confirmado hoje pelo Provincial, e também hoje, diante de duas testemunhas aceitei o cargo. Já se começa a saber. Chegam os 'parabéns'. Releio o que as Constituições dizem sobre o prior conventual: "O prior, não se considerando feliz por dominar com poder mas por servir com caridade: promova a vida fraterna regular e apostólica, proveja às necessidades dos irmãos, esforce-se por que os irmãos cumpram os seus deveres". Será que é para dar parabéns? A quem passar por aqui e ler estas linhas só peço uma coisa: Orate pro me!

Regina Sacratissimi Rosarii, ora pro nobis

Rainha do Sacratíssimo Rosário, rogai por nós. Não sei se, quando foram a Fátima, repararam que, no arco principal da Basílica, perto do altar, está gravada esta invocação. Porque Nossa Senhora, em Outubro revelou aos pastorinhos (a Lúcia) o que queria e quem era: "Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas". Mas não é daqui que vem a tradicional associação do mês de Outubro ser o mês do Rosário. Vem do século XVI, mais precisamente d0 ano de 1571. O papa São Pio V, dominicano, vence uma batalha no Lepanto e atribui essa vitória a Nossa Senhora do Rosário e institui a sua festa no dia da vitória, que hoje calha.

Esta invocação desde sempre esteve ligada a São Domingos. Uma tradição oral e artística (não histórica) do século XV, diz que Nossa Senhora, no ano de 1208, apareceu a São Domingos e deu-lhe o rosário. É daí que aparece o rosário no hábito dominicano. Historicamente sabe-se que a origem do rosário, tal como o temos hoje, é bastante posterior. Deve-se a sua invenção, divulgação e atribuição a São Domingos a um outro dominicano, Alain de la Roche, que, por humildade "inventou" esta aparição de Nossa Senhora a São Domingos. De qualquer forma, o Rosário nasce para ajudar os fiéis; é chamado muitas vezes a bíblia dos pobres. Nesta oração, simples e humilde, lembramos os mistérios da vida de Cristo (gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos), enquanto rezamos as 150 avé-marias (número igual ao dos salmos). E assim, quando se ia à igreja e aos mosteiros ouvir os frades rezar os ofícios, todos os dias se rezavam os 150 salmos, os fiéis rezavam as suas 150 avé-marias.

Neste dia deixo-vos um poema, também do século do Rosário, escrito por Afonso Álvares (1591) à Virgem Graciosa:



Avè, Virgem graciosa,
Que concebestes Jesus,
Madre de Deus gloriosa,
Mais clara estrela que a Luz,
Colorada mais que rosa,
Mais que lírio branco ornada,
Pois que em perfeição, Senhora,
Dos Santos todos honrada,
Que fostes merecedora
De ser no Céu coroada,
Dos cativos redentora,
Madre de consolação,
Fonte de todo perdão,
Em quem minha alma adora
Com mui limpo coração;
Rogo-vos, Santa Rainha,
Mezinha dos pecadores,
Perdão dos nossos errores,
Que sejais minha mezinha,
Pois que de tantos primores,
Da dor de todo o perdão,
Eu humildemente rogo
Que quem tiver devoção
Em mi, não lhe impeça fogo
Do inferno, nem trovão,
Por vossa santa Paixão
Que ouçais os meus clamores;
Mandai-me consolação
Pois sois glória e salvação
De todos os pecadores.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

São Bruno

Hoje é dia de São Bruno. Tenho-lhe muita devoção e invejo os seus monges. Quem me conhece deve rir-se com o que vou dizer mas, apesar de não ser cartuxo, sempre que visito uma Cartuxa ou passo por alguma imagem de São Bruno, fico com pena de Deus não me ter dado tão nobre vocação.

Porque é no silêncio que Deus se revela, é no silêncio que Deus nos visita, é no silêncio que nós nos visitamos e conhecemos mais profundamente, é no silêncio que ouvimos a voz rumorosa de Deus que nos enche e sacia, é no silêncio que melhor rezamos, é no silêncio que somos autênticos. O silêncio destes homens, imposto por regra mas acolhido por vocação, é diferente dos nossos silêncios: os nossos são, às vezes, sinal de angústia, de debilidade, de medo, de orgulho, até de ódio pode ser. O silêncio cristão é um silêncio positivo: de humildade, de contemplação, de alegria e de amor.

Defendo a Cartuxa contra aqueles que dizem que são pessoas 'inúteis' ou que fariam melhor trabalho pelo reino de Deus se andassem pelo mundo a pregar o Evangelho. Só quem não compreende a mística do silêncio e o valor da oração é que pode dizer isto. Sentir que enquanto nós trabalhamos, discutimos, esquecemo-nos de Deus, sei lá bem mais o quê, eles ali estão, no silêncio e na solidão, com Deus. Visitei, há um ano, com dois confrades a Cartuxa de Évora. Fomos recebidos por um irmão que nos mostrou a Cartuxa. Simplicidade, austeridade e, como comentávamos, um silêncio diferente.

Esta vida tão simples e tão especial que se pode resumir a calar para deixar Deus falar, foi desejada, querida e vivida por São Bruno. Pouco se sabe da sua vida. A primeira notícia da sua vida é esta, do século XIII:
"O Mestre Bruno, de nacionalidade alemã, da célebre cidade de Colónia, nascido de uma conhecida família, muito instruído nas letras profanas e divinas, cónego da igreja de Reims - primeira cátedra das Gálias - e seu mestre-escola, abandonando o mundo, fundou o deserto da Cartuxa e dirigiu-o seis anos. Mandado pelo papa Urbano, de quem antes tinha sido mestre, foi para a Cúria para ajudar o próprio Pontífice com o seu apoio e conselho. Mas não podendo resistir à agitação e aos costumes da Cúria, ardendo em desejos da solidão e quietude perdidas, deixou a Cúria, rejeitou o arcebispado de Reggio, para o qual, por vontade do papa, tinha sido eleito, e retirou-se a um ermo da Calábria chamado Torre. Reunidos ai numerosos leigos e clérigos, levou a cabo, enquanto viveu, o seu programa de vida solitária. E ali morreu e foi enterrado, uns onze anos depois de deixar a Cartuxa."

O que é a Cartuxa? São Bruno numa carta que escreveu a um seu amigo Raul explica: "Que utilidade e gozo divinos trazem consigo a solidão e o silêncio do deserto a quem os ama; só o sabem quem os experimentou. Aqui podem os homens esforçados recolher-se em si quanto queiram, e morar consigo, cultivar com afã as sementes das virtudes, e alimentarem-se felizes dos frutos do paraíso. Aqui se adquire aquele olho cujo olhar fere de amor ao Esposo, olhar limpo e o puro vê a Deus. Aqui pratica-se um ócio laborioso, e repousa-se numa sossegada actividade. Aqui, com a esforço do combate, Deus premeia os seus atletas com a sua benevolência, a saber, 'a paz que o mundo ignora e o gozo no Espírito Santo'".

Hoje uma boa e grande amiga minha faz anos. Também admira o silêncio de São Bruno. Para ela peço, e para mim também e para todos os que mais precisarem, que este grande homem de Deus nos ajude a ir calando as vozes interiores que nos incomodam e nos afastam do verdadeiro silêncio que mais não é do que permanecer em Deus.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Outonos


Dia da República. Já vai nos 99 anos. No entanto, para mim, pouco ou nada me disse este dia, além do feriado que gozei. Mas foi um dia em que as horas pareceram não passar. Um sol tímido, depois chuva, tempo estranho, na incerteza de um outono que ainda não se mostrou a sério mas também sentimos que já não é verão. Entreter o dia, esvaziar o pensamento, viver com calma. Neurastenia? Não. Stress? Também não. Dias menos quentes e com menos luz que, às vezes, influenciam os humores. Dia repartido entre a cozinha e o quarto. Na cozinha a preparar o almoço e o jantar para todos. No quarto as mesmas rotinas, algumas sem sentido.

Porém, hoje, talvez para que o outono interior não se instalasse, repeti este mantra que Santa Teresa de Ávila rezava em dias de mais nevoeiro, como eu hoje o senti:

Nada te perturbe,
Nada de espante,
Tudo passa,
Deus não muda,
A paciência tudo alcança.
Quem a Deus tem,
Nada lhe falta,
Só Deus basta.

O dia chegou ao fim. Lá fora continua o tempo estranho. Cá dentro voltou a calma. Dissipou-se o nevoeiro. Que a noite tranquila que peço antes de adormecer me traga, daqui a pouco, um bom despertar.

domingo, 4 de outubro de 2009

Um santo universal

Hoje, dia 4, celebra-se a festa do grande São Francisco de Assis. Talvez pelo seu estilo de vida, ou pela sua simplicidade, este santo é um santo universal. Reparem que o Papa João Paulo II reuniu-se várias vezes, em Assim, com membros de outras confissões religiosas para que houvesse paz. Padroeiro dos homens e dos animais (hoje é também o dia dos animais), do ecumenismo e da ecologia, São Francisco está bem e fica bem em qualquer lugar.
São Francisco, tal como São Domingos, são também homens do seu tempo. Numa época de opulência da Igreja, em que os bispos eram senhores feudais, e os cânones eclesiásticos pouco se tinham em conta, aparece este homem que inaugura um novo modo de estar na Igreja. Pela vida comum, conventos nas cidades e viver a pobreza de Jesus Cristo, ensinada no Evangelho, é assim que começam, depois também com São Domingos, as chamadas Ordens Mendicantes. No século XIII havia um refrão conhecido sobre as intenções de fundações dos grandes fundadores: “Bernardus valles, montes Benedictus amabat, oppida Franciscus, celebres Dominicus urbes” (Bernardo amava os vales, Bento os montes, Francisco as cidades e Domingos as cidades mais populosas).
O mais curioso entre estes dois homens, e acrescentamos aqui um outro, o Papa Inocêncio III, foi o sonho que teve: sonhou que a igreja de Latrão (a que pertence ao bispo de Roma) estava em ruínas e que dois homens a sustentavam para que ela não caísse. Uma outra tradição diz mesmo que São Francisco e São Domingos tiveram o mesmo sonho e que, no dia seguinte se encontraram, reconheceram e abraçaram.
São Francisco contagiou o seu tempo e o nosso, crentes e não crentes e até os indiferentes. Em 1981 (7/7), escreve assim o nosso Miguel Torga no seu Diário: “Falava-se do oitavo centenário da morte de S. Francisco de Assis, o meu santo. E louvei-o mais uma vez como pude. Chamei-lhe o Cristo da bem-aventurança terrena. Um Cristo poeta, sem o dramatismo árido do deserto e da expiação, a pregar transparências num cenário de branduras idílicas. Um Cristo que integrou o próprio demónio na fraternidade cósmica. Um Cristo humilde, sem a vocação do mando, alérgico à propriedade privada, fundador do sufrágio universal por voto secreto, anarquista, possesso da alegria da vida. Um Cristo a abrir o caminho do Renascimento só por acreditar no homem e na natureza. Um Cristo do mundo à medida do mundo”.
São Francisco está presente em todos os quadrantes das artes: as igrejas franciscanas com as suas particularidades, os pintores que não cessaram de pintar cenas da vida de São Francisco, e até na música São Francisco tem umas notas agradáveis. Deixo-vos uma, retirada da Legenda áurea (séc. XIII), acompanhada de imagens da vida de São Francisco pintadas pelo grande Giotto, também do final desse século.


video

sábado, 3 de outubro de 2009

Longos dias tiveram dez anos


Não, não vou falar do Livro da Augustina (Longos dias têm cem anos). Só lhe aproveito o título para falar destes meus dez últimos anos como dominicano. Sim porque hoje é dia redondo.

3 de Outubro de 1999, 16h, igreja de Nossa Senhora do Rosário. Quatro noviços fazem a sua profissão simples (primeiros votos). Prometem obediência, como no tempo de São Domingos. De lá para cá, muita estrada percorrida, às vezes com curvas, outras vezes rectas que parecem não ter fim, paisagens diversas, com novidade ou aborrecidas, dias longos ou breves, para nós, porque o relógio não adianta nem atrasa, dias que pareceram noites de inverno e noites que brilharam como dia de verão. Tempo também de algumas perdas. De quatro restamos dois. Estes dois que ficaram, andaram sempre juntos nas datas. Desde a tomada de hábito até à ordenação. Parecem dois carris. Sempre um à frente do outro, porque a idade dá direito a precedência e sempre ao lado um do outro porque o caminho é o mesmo. E apesar dos vários apostolados, diferentes, por certo, lá nos vai acolhendo o mesmo tecto e a mesma mesa. Um terminou há dias uma missão; o outro começa hoje uma nova missão. E assim vão passando os dias, os meses e os anos, como o fio de lã na mão da dobadeira. Longos dias têm dez anos. Há dez anos nenhum de nós sabia que faria o que fez, de bem e de mal, e que hoje está a fazer o que faz. Cobrir necessidades, aproveitar talentos, depositar esperança e confiança... Hoje sabemos o que fizemos mas não sabemos o que faremos. Mas lá vamos, aceitando desafios e tentando não ficar mal na fotografia. Longos dias terão dez anos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Grande mês, este mês


Entramos no mês de Outubro. No Borda d'Água, sim, aquele almanaque tão português, que já conta com 80 anos, encontramos, para este mês, entre outras coisas, os trabalhos que se devem fazer nos campos, como por exemplo, iniciar as sementeiras de cereais e de leguminosas, nas hortas, entre outras coisas, começam a semear-se as ervilhas, favas e agriões e no jardim começar a preparação dos canteiros para as sementeiras da época. E encontramos ainda alguns provérbios referentes a este mês, como por exemplo este: "Em Outubro sê prudente: guarda pão, guarda semente".

Mas, para o orbe cristão, este é um dos meses mais ricos em termos de celebrações de santos. Ontem à noite fui folhear o meu livro das horas e olhem quanta riqueza: antes de mais, este mês é, ao mesmo tempo, o mês do Rosário e o mês das Missões. Começamos logo no primeiro dia, que hoje calha, com a festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira das Missões; amanhã, dia 2, vamos celebrar umas das festas mais ternurentas: a festa dos santos anjos da guarda, sim aquele santo que nos acompanha e a quem nós rezamos aquela oração, talvez para alguns a primeira oração que aprenderam: "Anjo da Guarda, Minha companhia, Guardai a minha alma, De noite e de dia"; dia 4 de Outubro, outra grande festa: São Francisco de Assis, o santo universal, fundador dos franciscanos; dois dias depois a festa de São Bruno, o grande eremita da Idade Média, homem do silêncio para poder estar só e a sós com Deus; no dia seguinte, temos a grande festa de Nossa Senhora do Rosário, daí este mês ser o mês do Rosário. Lembremo-nos que, em Fátima, no mês de Outubro, nossa Senhora apresentou-se como a Senhora do Rosário. Damos um salto de quatro dias e temos, no dia 11, a festa do grande Beato João XXIII, il Papa buono (o bom Papa); e no dia 15 temos a festa da grande Mulher (sim, com M grande) do século XVI, Santa Teresa de Ávila, que reformou o Carmelo e que é uma das Doutoras da Igreja. Mais à frente, no dia 18, São Lucas, o Evangelista da misericórdia de Deus; no dia 27 a festa de um santo português, São Gonçalo de Lagos, sepultado em Torres Vedras, e finalmente, no dia 28 a festa de dois Apóstolos: São Simão e São Judas Tadeu (que, infelizmente, está ligado a muitas superstições). Que riqueza, meu Deus!

A propósito deste dia 1, deixo-vos um texto missionário, talvez o mais belo dos textos missionários, escrito por Santa Teresinha do Menino Jesus, uma monja que, sem nunca ter saído da clausura do mosteiro se tornou padroeira das Missões. E lembremo-nos que a nossa actividade missionária começa quando saimos de nossa casa:

"Entrei no convento porque me fascinavam os grandes espaços, as imensas paisagens, os horizontes sem fronteiras... No Carmelo, os grandes espaços são interiores... são a imensidade dos votos. No Carmelo... o Amor é maior que o mar e maior que o céu. As paredes do Carmelo são transparentes aos olhos do coração.
O Caramelo permitia-me viver quer na África quer na Índia. Ao entrar no Carmelo eu entrei em todas as partes. Entrei nas casas dos pobres e na casa dos ricos, na casa dos que estavam afastados e na casa dos que estavam próximos. No Carmelo eliminam-se as fronteiras, elas são ilimitadas... Ao fazer-me carmelita fiz-me chinesa, indiana, japonesa. Sou de todo o mundo. O meu coração é livre de ir por onde quiser. O Amor tornou possível ao meu coração dar a volta ao mundo. Tudo o que acontece no mundo acontece no coração de quem ama. (…) Ao entrar no Carmelo eu passei a anunciar o Amor nas cinco partidas do mundo, nas cidades mais remotas... eu passei a ser missionária... e sê-lo-ei ate ao fim do mundo. Só o Amor é caminho que leva ao fim do mundo. Quando o coração se torna pobre já não vive agarrado à sua casa, ao seu quarto, à sua rua, aos seus negócios: é livre... pode partir! Pode ir e pode vir. È um navio que solta as amarras. Pode fazer-se mar adentro, pode navegar pelo mar alto!
"