Um ritual

Não é hábito nem costume, é simplesmente um ritual. Vontade de sair de casa, percorrer cerca de cinco quilómetros, de pé ligeiro, pelos arredores da sua casa. E lá vai ele, todos os dias, menos quando não pode, fazer a sua caminhada, pelas ruas do bairro. E enquanto vai andando, vai vendo o recolher da cidade, autocarros mais vazios, táxis que voam, pessoas que passam, umas ainda a chegar do trabalho, outras que, como ele, também fazem a sua caminhada. Enquanto vai, de ténis calçados, rua acima, rua abaixo, lá vai passando as contas do rosário, entarameladas com o que lhe vai passando na cabeça. E vê as plantas do prédio, sente aquela frescura, só naquela sítio, frescura já tão rara na cidade, que lhe faz lembrar aquele fresco da serra; ainda ouve os grilos, naquele descampado que, não tarda, se vai transformar em mais uma torre de betão. Passear por Lisboa à noite. Sempre ao mesmo ritmo, sempre as mesmas ruas, sempre o mesmo ruído, sempre a mesma luz, quase sempre à mesma hora. Caminhadas que o cansam para passar bem a noite mas que, ao mesmo tempo, aliviam a tensão acumulada de uma cadeira onde passou quase todo o dia, ou dos problemas que tem para resolver, ou ainda das situações por onde passou e que agora lhe assaltam o pensamento. E lá vai ele, sozinho, de contas na mão a deitar contas à vida... Sozinho não! Vai com Deus, que é a melhor das companhias.

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