Caim e Saramago


Não se fala de outra coisa. E curiosamente não se fala tanto do livro que Saramago escreveu mas sim do que ele disse. E são coisas diferentes. Eu até diria que são quase duas pessoas diferentes.

E também não estranho nem o que ele disse nem a temática escolhida. Que se diz ateu e anti-religioso é de todos conhecido; que escolha um tema bíblico também não é a primeira vez que o faz.
Mas desta vez o que disse foi demais. Porque insultou todas as religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo), e, consequentemente, todos os crentes, mesmo que não sejam praticantes. Seria de esperar, de uma pessoa culta e que até recebeu um nobel, que tivesse um mínimo de respeito por quem tem fé e que não achincalhasse livros que para quem tem fé são sagrados, pessoas que para quem tem fé merecem respeito, e, sobretudo, tendo em conta uma certa tradição cristã, que não é só religiosa, que respeitasse a gente do país ao qual pertence, mesmo que barafuste e ameace que deixará de ser português.

E ainda só estamos no que ele disse, que merece ainda algum comentário. O que os autores da Bíblia fizeram não devia ser novidade para o nobel da literatura. Eles, como eram crentes, interpretaram a sua história à luz de Deus. Arranjaram explicações sobre a origem das coisas à luz de Deus. Demos o exemplo de Caim. Creio que todos os que estamos ligados à Bíblia sabemos que se trata de um mito de origem, e que esta história serve para explicar que, tendo entrado o mal no mundo com o fruto proibido (também isso é um mito de origem), a desgraça que veio depois foi a do homicídio. E Saramago, homem culto, deveria saber que qualquer escritor, seja ele quem for - e ele também o faz - interpreta e conta, à sua maneira, acontecimentos e explicações originais. E nisto temos que tirar o chapéu aos escritores do tempo do livro do Génesis que tiveram muito mais imaginação do que o nosso Saramago. Aqueles inventaram tudo; este, como não gosta da história, aproveita o que lhe interessa para, como diz o povo "levar a água ao seu moinho".

Em relação ao livro, há pouco a dizer. Porque ainda ninguém o terá lido. Eu tenho-o aqui, à minha direita. Gosto de Saramago escritor. Obriga à atenção. Aprende-se pontuação, aprende-se português. E não me digam que é a mesma coisa que ler aqueles livros 'pimba' que aparecem por aí. O meu Caim vai esperar ainda uns tempos. Tenho que acabar a "Casa de Escorpião" de Aquilino Ribeiro. Vou para a última novela. Aquilino, ao menos, não faz chacota nem de Deus nem da fé...

Acho que Saramago é um pós-ateu (não sei se existe pós-ateísmo). Deus deve-lhe falar muito alto lá dentro dele. E como ele não quer nem acreditar em Deus nem ouvi-lo, e acha que tem aquela idade e aquele estatuto em que se pode dizer e fazer tudo, ataca Deus e ataca todos os que crêem em Deus.

Só gostava que os crentes, que vão ler este livro de Saramago, lessem primeiro o original, que está na bíblia, logos nos primeiros capítulos do primeiro livro, e depois lessem a versão segundo Saramago.

Miguel Torga também escreveu sobre Caim. Mas foi para falar de terrorismo e condenar o fanatismo. Em Coimbra, 10 de Abril de 1983, escrevia assim: "Terrorismo no Algarve. Apenas uma vítima a mais de um mal que, desgraçadamente, é endémico no mundo. Desde Caim que o homem mata o semelhante por fanatismo. Todo o assassino é um sectário que serve um deus. O que impressiona é a natureza dos deuses servidos em certas horas". Aqui está, no meu modesto modo de ver, uma melhor interpretação do relato bíblico.




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