São Bruno

Hoje é dia de São Bruno. Tenho-lhe muita devoção e invejo os seus monges. Quem me conhece deve rir-se com o que vou dizer mas, apesar de não ser cartuxo, sempre que visito uma Cartuxa ou passo por alguma imagem de São Bruno, fico com pena de Deus não me ter dado tão nobre vocação.

Porque é no silêncio que Deus se revela, é no silêncio que Deus nos visita, é no silêncio que nós nos visitamos e conhecemos mais profundamente, é no silêncio que ouvimos a voz rumorosa de Deus que nos enche e sacia, é no silêncio que melhor rezamos, é no silêncio que somos autênticos. O silêncio destes homens, imposto por regra mas acolhido por vocação, é diferente dos nossos silêncios: os nossos são, às vezes, sinal de angústia, de debilidade, de medo, de orgulho, até de ódio pode ser. O silêncio cristão é um silêncio positivo: de humildade, de contemplação, de alegria e de amor.

Defendo a Cartuxa contra aqueles que dizem que são pessoas 'inúteis' ou que fariam melhor trabalho pelo reino de Deus se andassem pelo mundo a pregar o Evangelho. Só quem não compreende a mística do silêncio e o valor da oração é que pode dizer isto. Sentir que enquanto nós trabalhamos, discutimos, esquecemo-nos de Deus, sei lá bem mais o quê, eles ali estão, no silêncio e na solidão, com Deus. Visitei, há um ano, com dois confrades a Cartuxa de Évora. Fomos recebidos por um irmão que nos mostrou a Cartuxa. Simplicidade, austeridade e, como comentávamos, um silêncio diferente.

Esta vida tão simples e tão especial que se pode resumir a calar para deixar Deus falar, foi desejada, querida e vivida por São Bruno. Pouco se sabe da sua vida. A primeira notícia da sua vida é esta, do século XIII:
"O Mestre Bruno, de nacionalidade alemã, da célebre cidade de Colónia, nascido de uma conhecida família, muito instruído nas letras profanas e divinas, cónego da igreja de Reims - primeira cátedra das Gálias - e seu mestre-escola, abandonando o mundo, fundou o deserto da Cartuxa e dirigiu-o seis anos. Mandado pelo papa Urbano, de quem antes tinha sido mestre, foi para a Cúria para ajudar o próprio Pontífice com o seu apoio e conselho. Mas não podendo resistir à agitação e aos costumes da Cúria, ardendo em desejos da solidão e quietude perdidas, deixou a Cúria, rejeitou o arcebispado de Reggio, para o qual, por vontade do papa, tinha sido eleito, e retirou-se a um ermo da Calábria chamado Torre. Reunidos ai numerosos leigos e clérigos, levou a cabo, enquanto viveu, o seu programa de vida solitária. E ali morreu e foi enterrado, uns onze anos depois de deixar a Cartuxa."

O que é a Cartuxa? São Bruno numa carta que escreveu a um seu amigo Raul explica: "Que utilidade e gozo divinos trazem consigo a solidão e o silêncio do deserto a quem os ama; só o sabem quem os experimentou. Aqui podem os homens esforçados recolher-se em si quanto queiram, e morar consigo, cultivar com afã as sementes das virtudes, e alimentarem-se felizes dos frutos do paraíso. Aqui se adquire aquele olho cujo olhar fere de amor ao Esposo, olhar limpo e o puro vê a Deus. Aqui pratica-se um ócio laborioso, e repousa-se numa sossegada actividade. Aqui, com a esforço do combate, Deus premeia os seus atletas com a sua benevolência, a saber, 'a paz que o mundo ignora e o gozo no Espírito Santo'".

Hoje uma boa e grande amiga minha faz anos. Também admira o silêncio de São Bruno. Para ela peço, e para mim também e para todos os que mais precisarem, que este grande homem de Deus nos ajude a ir calando as vozes interiores que nos incomodam e nos afastam do verdadeiro silêncio que mais não é do que permanecer em Deus.

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