As vidas dos irmãos

Ontem à noite acabei de ler um livro muito importante para os Dominicanos: "A vida dos irmãos"; em latim, língua em que foi escrito, o título é "Vitae fratrum". Claro que não li em latim, os meus dotes não chegam a tanto. Mas este livro é importante porque é do século XIII, escrito por um frade dominicano, fr. Gerardo de Franchet, curiosamente, fundador do primeiro convento dominicano de Lisboa, no Rossio, actual igreja de São Domingos, em 1241. É ainda importante porque narra histórias da vida dos frades, pouco anos depois da morte de São Domingos. Histórias verídicas (é preciso ter em conta o conceito de veracidade no século XIII), mandadas recolher pelo então Mestre da Ordem, Humberto de Romans, e que encomendou a este frade que as juntasse num livro.
Estava em falta. Este livro foi-me dado em Fevereiro de 1999. Supostamente deveria ter sido lido nesse mesmo ano, porque fazia parte da leitura do noviciado mas, como nas nossas leis se diz que cada frade é primeiro responsável pela sua formação, às vezes achamos que há outras prioridades que não as que nos são propostas. Isto tudo para dizer que dez anos depois o livro está lido, com algum prazer e graça. Agora vou começar a ler a vida de São Bruno, fundador da Ordem da Cartuxa. Aqui fica uma história da "Vitae fratrum" que conta como se fundou o convento de São Domingos de Lisboa, naqueles tempos do século XIII, contada pelo próprio compilador:

“Antes de termos convento na cidade de Lisboa, os nossos frades costumavam pregar no mesmo lugar onde hoje está erguido o convento. E, pouco antes de o fundarmos, umas mulheres que moravam mais acima do nosso convento, junto à igreja da Santíssima Virgem – situada no monte – contemplaram com os olhos do corpo uma maravilhosa visão. Pois como aquelas mulheres estivessem a fiar ao luar (segundo o costume de Verão), viram de repente o céu aberto e uma escada de admirável beleza feita de ouro e prata que descia a uma figueira, junto à qual eu preguei muitas vezes antes de ali termos convento. Um extremo da escada tocava o céu e outro a figueira. Depois viram descer por aquela escada três homens adornados magnificamente com vestidos de ouro e prata: o primeiro dos quais parecia sub-diácono e levava nas mãos uma cruz de beleza maravilhosa; o do meio parecia diácono levando um turíbulo; o terceiro ia vestido de presbítero. Os três desceram em terra e deram uma volta a todo o lugar do nosso convento incensando-o. Voltaram depois à escada, subiram por ela e entraram no céu. Entretanto a escada ia desaparecendo até se ocultar a seus olhos. E aquelas mulheres, enquanto admiravam o acontecimento, não cessavam de louvar a Deus, de joelhos.
Os nossos frades viram as mulheres, mas eu não quis acreditar neles até que me levaram a uma viúva de santa vida que se encontrava presente à visão e que me contou todas as circunstâncias do sucesso. E eu, que era prior, depois de ouvir estas coisas, levantei nesse local, com autorização do Capítulo geral e provincial, um convento, onde os nossos frades servem ao Senhor dia e noite."

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